Eu mato ratazanas à noite. Mato ratazanas e espero por Ariadne. A morena das pernas de veludo, dos olhos de céu de sol e da boca desenhada com o esmero de mil artesãos. Às vezes ela chega às quatro, por vezes, cinco e eu já vi, juro, Ariadne chegar às sete da manhã...
Hoje é sábado, minhas trombetas soam cedo, me expulsando do diminuto quarto em que me escondo no subúrbio do Engenho de Dentro. Não me envergonho: Não dormi a noite toda, esperando por uma Ariadne que não veio. Fui dormir, despertando. Acordei dormindo sobre as trombetas e já assassinando as ratazanas. Será que elas me contariam onde essa garota foi? Certamente que não, já matei tantas delas, porque me ajudariam agora? Quase chego a sentir remorso e chorar pelas ratazanas mundiais. Mas eu disse, QUASE. Logo, recomponho-me e torno a matá-las novamente. E de novo...E de novo, e de novo!!!
Não sei como não cansam de morrer pelas minhas mãos... Fiz até um poema para minha Musa. Chama-se “Minha Coisa” e começa assim: ‘Minha coisona de bunda grande e cheirinho de iogurte, pêlo a pêlo quero te fo...’ Espere, espere...Ouço os sapatos de Ariadne no asfalto molhado da rua Joaquim Martins. Escuto o esvoaçar dos cabelos e das saias desta menina. Sinto os passos de Ariadne, sinto o leve tremor nos ombros de Ariadne, sinto o cheiro de Ariadne; Chego a desejar que essa moça morra em meus braços...Eu disse DESFALECER, e não morrer, tá? Quero a sopa quente que corre no corpo de Ariadne, quero os sucos de Ariadne, quero a carne de Ariadne...Quero o blues que chora todas as noites, aos pés, aos delicados pés de Ariadne. Passos rápidos de Ariadne, cansaço de Ariadne, paranóia adocicada de puta virgem, tirada de um poema de Rimbaud ou de Antero de Quental...
Moças tão belas já deviam nascer mortas...
Desço correndo as escadas na direção de Ariadne...Mas ela já passou. Seu tempo já passou. "Isso são horas? Por que não me avisou?"
Daqui a pouco, velho prestidigitador, vai valer até a pena ser fantasma ou imitar aquele contraventor descontrolado que quebrava garrafas de Johnnie Walker de tempos idos...Não espere coerência ou idéias concatenadas. “Meta as caras...” como dizem por aí, ‘E é só!’
Salto diante de Ariadne que recua surpresa. Meto as caras de uma vez. Desço sobre sua cabeça, uma paulada vigorosa...Logo, um melado escuro desce de seus sedosos cabelos, antes que ela vá ao chão. O mel cobre-lhe o rosto jovial, suplanta-lhe o odor de lençóis amanhecidos e cobre toda a calçada... Sabe, bela Ariadne em minha escala de valores você aporta em segundo lugar. Vês que importância? Segundo lugar, viu? Logo depois das ratazanas...
quarta-feira, 17 de março de 2010
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