CONTAGEM PROGRESSIVA
Corta! E era tensa a espera. Tensa de tudo: de tarde, de noite ou de ‘madrugadia’. Deturpando toda e qualquer plausível hipótese em carne e osso. Um.
Ou dois... Sentia-se o tempo, desde que se soube que havia uma bomba aqui, ali e acolá. Perto e longe. E o tempo passava, caindo feito pedra, montes de pedras, de prédios, de palavras, rolando em dois pontos: nós e eles. Um sussurro no próximo segundo poderia ser um urro. Três...
Uma bomba escondida? Aonde? Como? Em que vão? Em quais entrelinhas?
Vasculhávamos tudo: poltronas, armários, textos e sub-textos; pontos e vírgulas; sofás, senh@s, seixos, sexos, usernames e sonhos...
O chão auscultado, revolvido como um corpo doente.
Mãos furando paredes, olhos mirando um ponto qualquer. Nada tinha fim e sobrava, tudo cedia quando tocado, abrindo novo campo sub-reptício. E a este, mais quatro: jogo de espelhos, cartola com pombos e coelhos; rimas in/acidentais, capa de mágico, coração, fundos falsos...Estas reticências em tudo, sempre. Um esconderijo, uma pequena reentrância onde uma bomba, um ovo, um ovni, um susto! (entre parênteses) Possibilidades de sublocação. Mundos jamais habitados, entre uma parede e outra. Um deserto surpreendido. Deserto onde bombas podem se acasalar e proliferar como insetos, ratos, gralhas e gigabytes. Portas e chaves. Chaves a serem experimentadas nas fechaduras. Quando, enfim, acertávamos e ela se abria, outra porta por detrás desta, aparecia, fechada...Trancada. Novamente as chaves, o tilintar das chaves, as múltiplas portas: umas falsas, outras emperradas, algumas se abrindo para algumas e rangendo.
Cinco. O emparedamento inchado e roído exalava um algo semelhante a chuvas ancestrais, seguido de um vapor de ferrugem e carcaças de invertebrados. Tudo era escuro e inexplicável, como a ciência.
Tateávamos, pois, à margem do texto. Tartamudos, chafurdando pés em terreno molhado. Tartasurdos, tartacegos... Brincando, em horas erradas, com a palavra. O lodaçal do pâncreas, pantanal de pele, alçapões e rugidos; hieróglifos e humores (rumores?) desgovernados. Símbolos, sangue e bílis. Um protocolo sem histórico ou passado, o coração num bater imoral e volátil.
Quedamos a bomba. Literalmente, ou sua metáfora. Apurando os ouvidos, tentava-se deslindar nos vários sons que nos achegavam, o cauteloso resfolegar da linguagem; o bater dos relógios, o tiquetaquear das caixas trancafiadas a priscas eras (seis); enquanto que, na velha juke-box, medievais vinis, rodavam em silêncio...
O começo profetizado da futura frase interrompida. Sempre em pontas de língua, prestes a serem ditas ou malditas. Destinadas a quebrar o silêncio em cacos, fragmentos, eticéteras, estilhaços. Em versos inversos dos trocadilhos mais infames. Só assim pudemos reparar, discernir, divisar quantos sons desembrulham-se, chocam-se, crepitando no ar (d)à noite.
Sete! As pupilas às escâncaras, habituando-se a treva total, ainda que temporária. Os arautos “amorcegados” nos campanários, nos templos; os volejantes de nomes tolos e torpes títulos querendo ser mais que aprendizes na escola do ‘como-é-grande-o-mundo’. O homem, que nesta terra miserável sem anjos e sem Augustos se assusta com a própria sombra, se fazendo Deus. Quantas frinchas, interstícios, brechas, oitos, fontes? Nada é plano, liso, pleno. Há mais côncavos que convexos, mas em toda parte (?) céus, terras e Shakeasperianas filosofias...Ângulos na penumbra, o sujeito oculto na oração. Subterrâneo, subterfúgio, sub-urbano subentendido, mesmo perante algo aparentemente exato, compactado e indivisível. Nove?
Magia e mitos do pensamento. Frases e comunicação. Sorrisos heréticos e vergonhosamente contritos. Agulhas no palheiro, personagens mais Poeanos que Israfel e Annabel Lee. Vírus mais que incuráveis...
De repente, a compreensão! (ou não?) E se um, só um tivesse engolido a bomba? (ou não!) Separamos entre gritos e sangue; mantos, mantras e intestinos; braços, pernas e frontispícios; derme, epiderme e janelas de edifício. E muito mais: telas, livros, globos, glóbulos e rg’s...
Logo, chegamos às vísceras... Nem bomba, nem nada. Apenas um tufo de carne, cabelo e jornais. Dez.
Rio de Julho, Sampa, dia 37 de 1981/2000.
quarta-feira, 17 de março de 2010
A CLASSIFICAÇÃO DE ARIADNE
Eu mato ratazanas à noite. Mato ratazanas e espero por Ariadne. A morena das pernas de veludo, dos olhos de céu de sol e da boca desenhada com o esmero de mil artesãos. Às vezes ela chega às quatro, por vezes, cinco e eu já vi, juro, Ariadne chegar às sete da manhã...
Hoje é sábado, minhas trombetas soam cedo, me expulsando do diminuto quarto em que me escondo no subúrbio do Engenho de Dentro. Não me envergonho: Não dormi a noite toda, esperando por uma Ariadne que não veio. Fui dormir, despertando. Acordei dormindo sobre as trombetas e já assassinando as ratazanas. Será que elas me contariam onde essa garota foi? Certamente que não, já matei tantas delas, porque me ajudariam agora? Quase chego a sentir remorso e chorar pelas ratazanas mundiais. Mas eu disse, QUASE. Logo, recomponho-me e torno a matá-las novamente. E de novo...E de novo, e de novo!!!
Não sei como não cansam de morrer pelas minhas mãos... Fiz até um poema para minha Musa. Chama-se “Minha Coisa” e começa assim: ‘Minha coisona de bunda grande e cheirinho de iogurte, pêlo a pêlo quero te fo...’ Espere, espere...Ouço os sapatos de Ariadne no asfalto molhado da rua Joaquim Martins. Escuto o esvoaçar dos cabelos e das saias desta menina. Sinto os passos de Ariadne, sinto o leve tremor nos ombros de Ariadne, sinto o cheiro de Ariadne; Chego a desejar que essa moça morra em meus braços...Eu disse DESFALECER, e não morrer, tá? Quero a sopa quente que corre no corpo de Ariadne, quero os sucos de Ariadne, quero a carne de Ariadne...Quero o blues que chora todas as noites, aos pés, aos delicados pés de Ariadne. Passos rápidos de Ariadne, cansaço de Ariadne, paranóia adocicada de puta virgem, tirada de um poema de Rimbaud ou de Antero de Quental...
Moças tão belas já deviam nascer mortas...
Desço correndo as escadas na direção de Ariadne...Mas ela já passou. Seu tempo já passou. "Isso são horas? Por que não me avisou?"
Daqui a pouco, velho prestidigitador, vai valer até a pena ser fantasma ou imitar aquele contraventor descontrolado que quebrava garrafas de Johnnie Walker de tempos idos...Não espere coerência ou idéias concatenadas. “Meta as caras...” como dizem por aí, ‘E é só!’
Salto diante de Ariadne que recua surpresa. Meto as caras de uma vez. Desço sobre sua cabeça, uma paulada vigorosa...Logo, um melado escuro desce de seus sedosos cabelos, antes que ela vá ao chão. O mel cobre-lhe o rosto jovial, suplanta-lhe o odor de lençóis amanhecidos e cobre toda a calçada... Sabe, bela Ariadne em minha escala de valores você aporta em segundo lugar. Vês que importância? Segundo lugar, viu? Logo depois das ratazanas...
Hoje é sábado, minhas trombetas soam cedo, me expulsando do diminuto quarto em que me escondo no subúrbio do Engenho de Dentro. Não me envergonho: Não dormi a noite toda, esperando por uma Ariadne que não veio. Fui dormir, despertando. Acordei dormindo sobre as trombetas e já assassinando as ratazanas. Será que elas me contariam onde essa garota foi? Certamente que não, já matei tantas delas, porque me ajudariam agora? Quase chego a sentir remorso e chorar pelas ratazanas mundiais. Mas eu disse, QUASE. Logo, recomponho-me e torno a matá-las novamente. E de novo...E de novo, e de novo!!!
Não sei como não cansam de morrer pelas minhas mãos... Fiz até um poema para minha Musa. Chama-se “Minha Coisa” e começa assim: ‘Minha coisona de bunda grande e cheirinho de iogurte, pêlo a pêlo quero te fo...’ Espere, espere...Ouço os sapatos de Ariadne no asfalto molhado da rua Joaquim Martins. Escuto o esvoaçar dos cabelos e das saias desta menina. Sinto os passos de Ariadne, sinto o leve tremor nos ombros de Ariadne, sinto o cheiro de Ariadne; Chego a desejar que essa moça morra em meus braços...Eu disse DESFALECER, e não morrer, tá? Quero a sopa quente que corre no corpo de Ariadne, quero os sucos de Ariadne, quero a carne de Ariadne...Quero o blues que chora todas as noites, aos pés, aos delicados pés de Ariadne. Passos rápidos de Ariadne, cansaço de Ariadne, paranóia adocicada de puta virgem, tirada de um poema de Rimbaud ou de Antero de Quental...
Moças tão belas já deviam nascer mortas...
Desço correndo as escadas na direção de Ariadne...Mas ela já passou. Seu tempo já passou. "Isso são horas? Por que não me avisou?"
Daqui a pouco, velho prestidigitador, vai valer até a pena ser fantasma ou imitar aquele contraventor descontrolado que quebrava garrafas de Johnnie Walker de tempos idos...Não espere coerência ou idéias concatenadas. “Meta as caras...” como dizem por aí, ‘E é só!’
Salto diante de Ariadne que recua surpresa. Meto as caras de uma vez. Desço sobre sua cabeça, uma paulada vigorosa...Logo, um melado escuro desce de seus sedosos cabelos, antes que ela vá ao chão. O mel cobre-lhe o rosto jovial, suplanta-lhe o odor de lençóis amanhecidos e cobre toda a calçada... Sabe, bela Ariadne em minha escala de valores você aporta em segundo lugar. Vês que importância? Segundo lugar, viu? Logo depois das ratazanas...
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